COVID-19

Negócios e Covid-19: onde terminam os problemas e começam as soluções?

11 min

As queixas multiplicam-se e são raros os setores que ficam indiferentes a esta crise. Os especialistas apontam o caminho num sentido: online. Veja se as principais inquietações e as poucas respostas são comuns ao seu negócio.

Data de publicação 2020 M04 28

A incerteza é o sentimento dominante. Desde a restauração à estética, passando pela saúde, fazem-se contas às perdas provocadas pela paragem forçada devido ao surto de Covid-19. Aqui e ali surgem alguns nichos de negócio e soluções de recurso. Mas, para já, nada que consiga compensar os prejuízos avultados. Os especialistas dizem que a solução está no online. Será? Conheça alguns casos e quais as respostas possíveis.

 

“Não vai ser possível estar descontraído nos restaurantes quando à frente está alguém armadilhadoda cabeça aos pés”

Ricardo Ribeiro é empresário e sócio-gerente de vários cafés e restaurantes no Porto e em Lisboa, entre os quais Fauna & Flora, Sushiaria e Terminal 4450.  Apesar de se considerar otimista, acredita que “vêm aí tempos bastante difíceis”. Optou por fechar os restaurantes mesmo antes de ser decretado o Estado de Emergência, devido à “falta de confiança para continuar a trabalhar por razões de saúde pública” e à “descida acentuada do número de clientes” em alguns dos espaços. Em março teve apenas um quarto da faturação habitual; em abril, ainda menos: “Ainda não sei as percentagens, mas o que vendemos é residual”.

Para “as marcas não estarem paradas” e “as pessoas continuarem a ter acesso a elas” optou por abrir para take-away e entregas ao domicílio: “A Sushiaria já tinha take-away e foi mais fácil. Depois começámos com o Fauna & Flora, em Lisboa. Nos restantes, fizemos uma cozinha de produção e aquilo que oferecemos ao cliente é uma conjugação”, explica.

Quanto à gestão de recursos humanos, Ricardo Ribeiro teve de optar por várias soluções: “Até ao final de março dissemos aos colaboradores que seriam férias. No início de abril, aderimos ao lay-off. Quando começámos o take-away, continuaram em lay-off, mas com redução de horário de trabalho. Não renovámos seis ou sete contratos. Eram pessoas válidas, que gostaríamos de continuassem connosco, mas não foi possível”. Além do regime de lay-off, o empresário teve ainda de “recorrer à banca, a um empréstimo que o Estado disponibilizou” para que fosse possível “chegar ao final do mês e conseguir pagar aos colaboradores”.

Na Quinta do Avesso, um espaço que gere destinado a casamentos e eventos, encontrou uma solução de recurso para dar resposta aos pedidos dos clientes: “Quando os noivos pensam em casar vão procurar várias quintas e fazem visitas presenciais. A opção agora é fazer por vídeochamada. As pessoas estão a aderir e já fechámos seis ou sete casamentos para 2021. No entanto, tínhamos 90 em 2020 e vai ser muito difícil transportá-los para 2021”.

Quanto ao futuro, vai dar continuidade ao take-away e entregas ao domicílio na restauração, mas tem dúvidas sobre se será possível retomar o negócio com tantas exigências de saúde pública: “Não é exequível um restaurante trabalhar com menos de 60 a 80% de ocupação. Não acredito que a grande maioria dos restaurantes consiga sobreviver dessa forma. Hoje em dia, por causa da concorrência e da carga fiscal, temos margens muito curtas e estruturas muito pesadas”. Na opinião do empresário, mesmo que se cumpram todas as regras, também vai ser difícil recuperar a confiança dos clientes: “Não vai ser possível estar descontraído nos restaurantes quando à frente está alguém ‘armadilhado’ da cabeça aos pés com roupa descartável, máscara, viseira, luvas”.

 

“Vamos voltar a ser um país de terceiro mundo em termos de saúde oral”

Gonçalo Oliveira e Sá é médico dentista e começou a preparar a sua clínica  para a Covid-19 muito antes da doença efetivamente chegar a Portugal. “Temos alguns pacientes chineses que costumam ir passar o Ano Novo à China e tentei recolher o máximo de informação possível com um colega que tenho em Macau. Explicou-me qual o protocolo em termos de receção, triagem de pacientes… e comecei a antecipar a situação em janeiro”, explica. Além de tudo o que já é habitual na sua atividade profissional, teve de adotar também “máscaras específicas FFP2 ou FFP3 e viseiras”. Quanto ao espaço, teve de ser repensado: “Na sala de espera mudei a disposição para que cada cadeira esteja a dois metros uma da outra; diminuí em 2/3 a lotação do espaço e a receção foi delimitada com uma faixa e proteção de acrílico. Agora vamos tentar que as pessoas não se cruzem nem na sala de espera nem na receção. Reorganizámos a entrada na clínica, vamos rastrear o paciente, medir a temperatura, fazer o questionário e encaminhamos logo para o gabinete. Até porque a receção e a sala de espera vão ter de ser desinfetadas entre cada pessoa”.

A prevenção é o melhor remédio, mas, no que toca à parte financeira, não resolve tudo. Primeiro, Gonçalo Oliveira e Sá optou por “antecipar as férias que estavam planeadas para a semana seguinte”, depois recorreu ao lay-off parcial com “duas assistentes a trabalhar a 50%”. No entanto, a clínica teve “uma quebra de 45% de faturação em março e de 96% em abril”. “Neste momento, tenho um prejuízo de 17 mil euros e apoio estatal zero”, afirma. “Se a partir de meados de maio não atingir os 50% de faturação, a clínica vai começar com sérios problemas e 90% das clínicas em Portugal têm o mesmo problema”. De acordo com o médico dentista, há inclusivamente colegas “a pedir ajuda ao Banco Alimentar”. E explica: “80% dos médicos dentistas trabalham à comissão e ganham uma percentagem daquilo que fazem. Se não há trabalho, o que ganham?”. 

Quanto ao futuro, Gonçalo Oliveira e Sá está preocupado com o regresso a uma nova “normalidade”: “Os dentistas estão entre as profissões de maior risco. Nós trabalhamos entre 50 a 70 cm de distância da boca do paciente. Quando falamos de uma distância social de dois metros, estamos a 1/4 dessa distância. É muito difícil um dentista contaminar um paciente, mas é muito fácil sermos contaminados”. Para além dos riscos de saúde, o médico dentista está também indignado com o “alheamento dos sucessivos Governos” em relação ao setor. Na opinião de Gonçalo Oliveira e Sá, “a medicina dentária em Portugal é eminentemente privada e, com esta pandemia, vai ser o descalabro para a saúde oral dos portugueses”. Para encontrar trabalho e recuperar dos prejuízos, o médico antecipa “uma vaga de emigração de dentistas” e "se houver menos dentistas, os preços aumentam”. A juntar à “perda do poder de compra”, Gonçalo Oliveira e Sá vaticina: “Vamos voltar a ser um país de terceiro mundo em termos de saúde oral”.

 

“Um dos meus maiores receios é abrir para depois ter de fechar outra vez”

Filipa Santos é cabeleireira e há menos de dois anos resolveu lançar-se por conta própria com o Mude XXI. Por causa da pandemia, fechou uma semana antes de ser decretado o Estado de Emergência e ainda não sabe quando vai reabrir: “Estou a prever reabrir dia 4 de maio, mas ainda não é certo. Já passei a mensagem às clientes e já comecei a fazer marcações. Se, por acaso não abrir, volto a avisar”, explica. Enquanto isso, já começou a preparar-se, mediante a pouca informação a que vai tendo acesso: “Ainda não sabemos quantas pessoas podem estar no mesmo espaço, mas só vamos trabalhar por marcação. Não vamos aceitar pessoas que apareçam e queiram ser atendidas logo. Vamos colocar acrílicos na mesa das manicures e usar máscara, viseira e desinfetante. Vamos colocar um separador na porta, que tem de ficar aberta para circular o ar, mas de forma a impedir a passagem”.

Quanto ao estado do negócio, Filipa Santos teve “uma quebra de 60% em março” e de “100% em abril”: “Tenho uma colaboradora a contrato. Em março paguei 3/4 do ordenado e este mês não sei como vou fazer. Fiz pedido de lay-off para o mês de abril. Eu sou sócia-gerente não remunerada e ainda não sei a que é que vou ter direito”.

No regresso à atividade, a cabeleireira admite que um dos seus “maiores receios é abrir para depois ter de fechar outra vez” caso surja uma nova vaga da pandemia ou não estejam reunidas todas as condições de saúde pública. Filipa Santos lembra que este tipo de trabalho “depende muito do contacto” e questiona: “Mesmo não abrindo o cabeleireiro, se fosse a casa das clientes, não ia estar em contacto na mesma? Já tive conhecimento de muitas situações irresponsáveis”. Por isso, não arrisca. Mesmo com o salão fechado, tem procurado dar resposta, por telefone, aos pedidos de ajuda das clientes que pretendem saber como pintar o cabelo ou as unhas em casa. Questionada sobre se este poderia ser um nicho de negócio, confessa: “Nunca pensei nisso, mas era uma ideia”.

 

As sugestões dos especialistas

Junte um mentor de negócios a um consultor digital e obtém uma resposta simples: a solução está no online. No entanto, o senso comum diria que nem todos os negócios podem ser feitos à distância. Será? Talvez. 

Gonçalo Hall é consultor digital, organiza conferências sobre trabalho remoto e já está a preparar as próximas: “Quem trabalha num computador consegue trabalhar remotamente”, garante. O problema, naturalmente, está nos negócios que não dependem só de um computador. Nesse caso, Gonçalo Hall defende que é necessário apostar no futuro: “Como vamos dar às pessoas uma experiência única, algum conteúdo, para que, assim que a pandemia acabar, queiram vir ao meu negócio?”, questiona. E dá exemplos: “Uma cadeia de hotéis para nómadas digitais está a criar eventos online para construir uma comunidade. Quando voltarem a abrir, voltam em força”. O mesmo - afirma - poderia ter sido pensado para a Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL): “Porque é que a BTL não passou para o online? Era importante discutir soluções para o setor do Turismo e poderiam conseguir ganhar algum dinheiro”. No mesmo sentido, o consultor defende que seria uma boa altura para o Turismo de Portugal voltar a apostar no “vá para fora cá dentro”: “Em vez de promoverem o Algarve, que é destinado às massas, promoviam o turismo rural, o interior, onde há menos pessoas e menos riscos”.

Também Cristiano Btzar, mentor de negócios, defende que é necessário apostar no conteúdo e no conhecimento, mesmo nos negócios que parecem menos óbvios de transpor para o digital: “Tive uma empresa de limpeza e percebi que muitas empregadas têm truques e estratégias. Esse conhecimento sobre os produtos ou a forma como se deve limpar pode ser vendido. Existe quem pague por isso”, assegura. Outro exemplo, que acompanhou de perto, enquanto consultor, foi na área do artesanato: “Em cinco dias, a empresa passou do físico ao digital. Em vez de vender os produtos, apostou na criação de aulas. Os clientes pagavam para aprender a fazer artesanato e ainda compraram o material à loja dela”.

Para Cristiano Btzar, “a oportunidade que existe agora é criar uma comunicação online direcionada ao cliente-alvo: fazer perguntas, entender o que podemos melhorar no nosso negócio e que dores podemos ajudar a resolver. Quanto mais conteúdo derem ou venderem, estarão a criar um branding, um grupo de fãs e, quando o negócio voltar ao normal, as pessoas vão querer consumir essas marcas”.

Apesar de reconhecer que alguns negócios “mais antigos” não conseguiram adaptar-se e acabaram por fechar, Gonçalo Hall está optimista quanto ao futuro: “Quem trabalha de forma remota consegue poupar. E muitas pessoas estão ansiosas para ter férias e viajar. Quem ia para fora, sobretudo das classes médias-altas, vai continuar a gastar e vai gastar cá dentro”.

No Brasil, a consultora de marketing e blogger Ana Tex acumula 432 mil seguidores no Instagram e criou, de propósito para esta fase, o projeto Quarentex, onde dá aulas online gratuitas e partilha inúmeras sugestões de como os negócios se adaptaram à pandemia: desde fotógrafos, a empregadas de limpeza, passando por animadores e contadores de histórias, há um pouco de tudo. Quem quiser, pode, inclusivamente fazer o download do livro digital “100 formas de trabalhar online na quarentena”. Também é gratuito. Quem sabe, encontra por lá a solução que procura para o seu negócio.

 

Tome nota… Dicas dos especialistas:

-Aposte no online e na digitalização dos negócios

-Mantenha a ligação ao público-alvo do seu negócio, reforçando a marca, para que, no regresso à atividade, esta comunidade queira consumir a sua marca

-Aposte no conteúdo - se o seu negócio não funciona online, então encontre estratégias de partilha de conhecimento na área do seu negócio

-Invista na sua formação e na formação dos seus funcionários

 

Especial Animais

Dizem que os animais são os nossos melhores amigos, por isso criámos um especial para eles!

Cão à janela do carro vale multa pesada

Poupar

Cão à janela do carro vale multa pesada

1 min
10 receitas de comida para o seu cão feitas em casa

Poupar

10 receitas de comida para o seu cão feitas em casa

2 min
Tem um gato? Prepare-lhe refeições caseiras

Poupar

Tem um gato? Prepare-lhe refeições caseiras

2 min
Pode invadir uma casa para salvar um animal maltratado?

Direitos e Deveres

Pode invadir uma casa para salvar um animal maltratado?

3 min
Cão na creche, cão feliz.

Direitos e Deveres

Cão na creche, cão feliz.

5 min
5 despesas que pode evitar com animais

Poupar

5 despesas que pode evitar com animais

1 min
Como poupar nas despesas de veterinário

Poupar

Como poupar nas despesas de veterinário

4 min