Direitos e Deveres

Liderar no feminino: dicas para uma carreira de sucesso

10 min

Em fevereiro de 2019, entrou em vigor a Lei da Igualdade Remuneratória. O que mudou? E o que ainda há para mudar no caminho rumo à igualdade salarial, de oportunidades e direitos?

Data de publicação 2020 M03 5

Sofia tem 41 anos e lidera uma equipa na área de marketing. Foi há cerca de seis anos que assumiu o seu primeiro cargo de chefia, à data à frente de uma equipa direta de três pessoas, mas com a colaboração indireta de mais dez. “Quando assumi esse cargo, numa altura de enorme tumulto na empresa onde trabalhava, não tinha noção das minhas capacidades para chefiar. Aliás, se tivesse de apostar, até diria que não as tinha”. Os desafios quotidianos provaram que estava errada. “Percebi que, pelo contrário, tinha uma capacidade muito natural para liderar”.

Há três anos assumiu um novo desafio de liderança, noutra empresa, e com uma equipa bastante maior: cerca de 20 pessoas, homens e mulheres. “Ao longo destes anos fui encontrando as minhas especificidades na minha forma de liderar. Por exemplo: acredito muito que chefiar deve ser dar o exemplo e que, ser líder, é também ser um pouco uma psicóloga. Talvez seja isto que se apelida de chefiar no feminino, com mais sensibilidade. Não acho que interessar-me pelas pessoas que fazem parte da minha equipa seja uma perda de tempo, bem pelo contrário”.

Trabalhou quase sempre em equipas maioritariamente femininas, ainda que lideradas por homens. Ainda hoje, reporta a homens. Ainda assim, não acha que alguma vez tenha sido preterida por ser mulher. “Mas acho que tive sorte. Tenho trabalhado sempre com pessoas que olham para lá do sexo”. Ainda assim, inúmeras vezes se viu em situações que sabe que apenas aconteceram porque é mulher: “Nunca, numa reunião, se diz a um homem que ele está muito bonito. Não digo que um elogio não seja agradável de ouvir, mas se estou numa reunião, não quero que estejam a reparar e a sublinhar o meu visual, quero que oiçam o que estou a dizer. Da mesma forma, se estou numa sala só com homens e um diz um asneira, acho um absurdo que me peçam desculpam. É uma atitude profundamente paternalista”.

No entanto, por vezes, são as próprias mulheres que se remetem para determinadas posições. “Quando engravidei dei por mim quase a desculpar-me pelos incómodos que a minha ausência iria causar”.

A verdade, conclui, é que “se não podemos permitir que determinados comportamentos sejam normalizados, com a desculpa de que ‘não foi por mal’; também não nos podemos vitimizar. Já foi feito um longo caminho rumo à paridade, mas ainda existe uma estrada muito longa pela frente”.

 

O género à frente do mérito?

Um estudo da consultora Mercer revela que 81% das empresas mundiais consideram importante melhorar a diversidade e a inclusão, mas apenas 42% têm uma estratégia plurianual para atingir a igualdade de género. Segundo o mesmo estudo, o número de mulheres em cargos de liderança tem aumentado, mas diminui quando se tratam de cargos de topo.

Já em Portugal, segundo dados divulgados em setembro de 2019, apenas 19 das 45 empresas cotadas em bolsa cumpriram as regras que obrigam a comunicar os planos anuais com medidas para promover a igualdade de género. E apenas 7 das 18 cotadas do PSI20, o índice principal da bolsa de Lisboa, apresentaram estas propostas. Em dezembro, a revista Forbes divulgou a lista das 20 mulheres mais poderosas do mundo empresarial em Portugal, com uma nota: “As mulheres continuam a ser uma minoria na liderança das empresas. Entre as 100 maiores empresas nacionais, apenas se contam cinco mulheres na liderança dos negócios - há um ano eram quatro”.

Para Daniel Cotrim, psicólogo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), “o género ainda está à frente da cultura de mérito” e “continuam a ser as desculpas dos homens a alimentar a desigualdade: a mulher engravida, vai ter filhos, vai passar mais tempo a tratar dos filhos”.

 

7 DICAS PARA UMA CARREIRA DE SUCESSO NO FEMININO

  • Seja fiel a si própria. Se gosta de usar vestidos e saltos altos, use. Se prefere usar calça e casaco com calçado mais desportivo, use. Karen Lynch, presidente da Aetna, conta que, em determinada altura da sua carreira, quando estava a ser ponderada para um cargo de liderança, foi aconselhada a não usar rosa por isso a fazer parecer mais miúda, como se a feminilidade do seu visual pusesse em causa as suas capacidades. Nunca deixou de usar rosa e conseguiu o cargo. 
  • Acredite em si e nas suas capacidades. Só ao acreditar em si e naquilo que é capaz de fazer será capaz de arriscar, factor determinante para se atingir o topo. 
  • Seja uma problem solver e não uma problem maker. As dificuldades existem em qualquer área de trabalho e posição hierárquica. No entanto, a capacidade de transformar os problemas em oportunidades é uma caraterística determinante para o sucesso. 
  • Aprenda a conciliar a vida profissional e pessoal. Isto não significa abdicar de uma em detrimento de outra, mas significa entender que em determinadas fases a vida profissional vai exigir mais dedicação e noutras fases será a vida pessoal a exigir mais. Com isto em mente é importante procurar o equilíbrio. Seja organizada e eficaz no tempo em que está a trabalhar. E quando está em casa dedique o seu tempo e atenção a família. Sobretudo tente não se culpabilizar. 
  • Tome decisões estratégicas. Defina os seus objetivos e seja estratégica nas tomadas de decisões. Isto pode significar um caminho mais difícil e menos óbvio, mas se souber onde quer chegar será mais fácil tomar as decisões que a levarão lá e, ao mesmo tempo, fará com que esteja mais atenta às oportunidades que surjam e que efetivamente vão ao encontro dos seus objetivos. 
  • Esqueça a frase “ser como um homem”. É frequente ouvirmos que uma mulher para assumir um cargo de liderança tem de “ser como um homem”. Uma mulher, para assumir um cargo de liderança, tem de ser apenas uma coisa: líder. Descubra qual a sua forma de liderar. Mas consciente de que pedir conselhos não é sinal de fragilidade. Ser solidária também não. Preocupar-se com aqueles que trabalham consigo ainda menos. E não há problema nenhum em mostrar o que pensa e o que sente. Humanizar as chefias é uma caraterística muitas vezes apontada às mulheres líderes, mas é uma caraterística positiva, que não deve anular no seu comportamento se chegar ao topo. Bem pelo contrário. 
  • It gets lonely up there. Consciencialize-se que os cargos de chefia são solitários. E podem ser ainda mais quando são ocupados por mulheres.

 

Lei da Igualdade Remuneratória: o que mudou?

Cento e quarenta e oito euros e noventa cêntimos. É esta, em média, a diferença salarial entre homens e mulheres. Um saldo negativo para as mulheres, apesar dos ligeiros sinais de diminuição desta diferença.

De acordo com a 2ª edição do Barómetro sobre Igualdade Remuneratória, revelado agora e promovido pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, a disparidade salarial entre homens e mulheres reduziu 0,4 pontos percentuais em 2018 face ao ano anterior, fixando-se em 14,4%. Apesar dos sinais positivos rumo à igualdade salarial, a redução é ainda residual - 80 cêntimos: a remuneração base média mensal registada foi de 1.034,9 euros para os homens, enquanto a das mulheres foi de 886 euros, a tal diferença de 148,9 euros. Isto cerca de um ano após a entrada em vigor, em fevereiro de 2019, da Lei da Igualdade Remuneratória.

O mesmo barómetro conclui que o salário dos homens está acima da média e o das mulheres continua a estar abaixo, e que a disparidade salarial varia entre um mínimo de 6,9% nas atividades administrativas e um máximo de 40,8% nas atividades dos organismos internacionais.

O secretário de Estado Adjunto, do Trabalho e da Formação Profissional, Miguel Cabrita, disse à LUSA que este barómetro “é uma ferramenta importante que a Lei da Igualdade Remuneratória veio introduzir, não só para melhorar a qualidade e o detalhe da informação sobre as diferenças salariais entre mulheres e homens, mas também para reforçar a sensibilização da sociedade portuguesa para esta temática”. Uma ideia partilhada pela secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, que considera que os dados continuam a justificar a necessidade de “intensificar o trabalho para eliminar esta discriminação”.

Assim, o Ministério do Trabalho refere que “até ao final do 1.º semestre deste ano de 2020, vai passar a disponibilizar às empresas e à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) um balanço sobre as diferenças remuneratórias entre mulheres e homens por empresa”. Será a partir deste documento, que a ACT irá depois notificar as empresas com 250 ou mais trabalhadores, no sentido destas justificarem as diferenças de ordenados entre homens e mulheres com a mesma função. A partir de 2021 esta lei da Igualdade Remuneratória vai aplicar-se também às empresas que tenham 50 ou mais trabalhadores.

 

O trabalho em casa

Segundo o Índice de Normas Sociais e de Género, que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, acabou de revelar, nos 75 países avaliados (cerca de 80% da população mundial), nove em cada dez homens e mulheres em todo o mundo têm alguma forma de preconceito contra a igualdade entre homens e mulheres. Um dado preocupante e que ilustra uma realidade: o preconceito existe em ambos os sexos. Muitas vezes, serão mesmo as mulheres a perpetuar hábitos matriarcais - sobretudo em países como Portugal, Espanha e Itália - que tornam a conciliação entre a vida profissional e pessoal da mulher um dos grandes desafios no que diz respeito à igualdade entre sexos. 

De acordo com o estudo “As Mulheres em Portugal, Hoje” revelado em 2019, pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em média, as mulheres efetuam 74% das tarefas domésticas, contra os 23% que o companheiro efetua. De acordo com este estudo, "serão necessárias cinco a seis gerações para que se alcance uma distribuição equilibrada das tarefas domésticas entre sexos”. O desequilíbrio das tarefas domésticas, “cria um gap negativo no tempo das mulheres, destinando-o mais ao trabalho do que a cuidar delas. Por isso, não é de estranhar que mais de 60% dizem sentir-se cansadas", explica este estudo, que envolveu uma amostra de 2428 mulheres.

Em pleno século XXI, ainda continuam a existir “mitos, estereótipos e crenças que alimentam os papéis de género”, explica o psicólogo Daniel Cotrim. Por isso, acredita, “a desigualdade é estrutural, é uma linha invisível que atravessa a sociedade portuguesa de uma ponta a outra”.

Num artigo de opinião publicado no Expresso, António Guterres sublinha que, apesar de ter havido “um enorme progresso nos direitos das mulheres ao longo das últimas décadas como a abolição de leis discriminatórias e o aumento do número de raparigas que frequentam a escola, enfrentamos agora uma forte reação em sentido contrário”. E, refere o secretário-geral da ONU, “há provas disso por todo o lado”. “Desde o mercado de trabalho, ordenado, habilitações continuam a existir inúmeras formas de discriminação marcadas por questões de género”, afirma Daniel Cotrim, referindo-se também às inúmeras formas de violência contra as mulheres. 

Ainda assim, o mais recente Índice sobre Igualdade de Género, revelado pelo Instituto Europeu para a Igualdade de Género, coloca Portugal em 16.º lugar entre os em 28 países da União Europeia, numa subida de sete posições em relação ao ano de 2005. O mesmo índice destaca Portugal como um dos países da União Europeia que mais medidas tem tomado para atingir a igualdade de género. Mas o percurso tem de continuar a ser trilhado e com uma consciência comum: a igualdade de género é uma responsabilidade de todos, homens e mulheres.

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