Trabalho e carreira

Foram para o campo e por lá ficaram

13 min

Cada vez mais pessoas trocam o rebuliço da cidade pela calma e tranquilidade de uma aldeia ou vila no interior. Se acha que está na altura de investir e de mudar para o campo, inspire-se em quatro histórias de vida que o Contas Connosco reuniu, e que podiam muito bem ser a sua.

Data de publicação 2020 M12 28

Portugal continua a perder população no interior, com a concentração de pessoas a fazer-se essencialmente no litoral e nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. No entanto, seja para fugir à confusão da cidade e viver e trabalhar à distância, como o Nuno e a Paula ou a Rita e o Nuno; para investir num negócio ligado à terra, como o Paulo; ou porque o objetivo desde a juventude foi uma carreira no campo, como o Tomás, cada vez mais pessoas procuram o campo. Escolhem trocar o apartamento apertado e as ruas cheias de carros por uma casa ao pé de animais ou de vizinhos que dizem ‘bom dia’ a qualquer pessoa que passa.

Sabemos que para este tipo de mudanças é preciso saber o que se quer e para onde se vai. Além disso acrescem custos, mas todas estas histórias viram os custos de hoje como um investimento de amanhã. 

Dois camiões para subir o Tejo

“Já viste esta escola?”. Foi esta simples pergunta, feita em abril de 2019, que levou Nuno e Paula a colocarem quase uma década de vida lisboeta em dois camiões com destino a Constância, distrito de Santarém. Ambos ribatejanos de coração, mas perdidos no trânsito diário da A5 entre os empregos em Oeiras e Carnaxide e a casa em São Domingos de Rana, já tinham começado uns meses antes a falar em sair da zona de Lisboa. O filho Francisco, agora com 6 anos, aproximava-se já do ensino básico e Caetana era uma bebé de meses que muitos dias só voltava a ver os pais já tarde. “Aquilo ficou ali no ar. Comecei a ver casas na zona, comecei a fazer contas e a pensar que uma mudança podia ser vantajosa”, conta Nuno, que sempre acreditou que iria “melhorar a qualidade de vida”.

Escolheram Constância, vila pacata ladeada pelo Tejo e pelo Zêzere; e entre a Chamusca de Paula e a Martinchel de Nuno - aldeia de Abrantes onde cresceu depois da infância passada na Suíça. Decidiram que não queriam obras, o que ajudou tratar de tudo em poucos meses:

No dia 18 de setembro de 2019 saímos de São Domingos de Rana, na noite seguinte já todos dormimos na casa nova, com muitas caixas por arrumar!”

O engenheiro informático de 37 anos confirmou todas as expectativas que tinha. “Tempo, qualidade de vida, rotinas mais desaceleradas, brincar, caminhar, andar de bicicleta com os filhos, tempo em família” são algumas das vantagens que destaca na nova vida, que lhe dá “uma sensação de paz muito grande”. Isto com a garantia de ter todos os serviços de que precisa, de “fazer quase tudo a pé”. Mas, ao mesmo tempo, de estar “a apenas 1h30 de Lisboa”, o que lhe permitia, antes da pandemia, fazer deslocações regulares à Fullsix, a empresa onde continua a trabalhar. Paula, 39 anos, ainda trabalhou algum tempo à distância e prepara-se neste momento para lançar um projeto pessoal, tendo em vista os apoios disponíveis para quem se muda para o interior.

Nos vizinhos, notam um cuidado grande com as crianças, conhecem todas as pessoas das casas em volta, e ficaram surpreendidos logo desde o início com a “partilha” que existe: “No Natal de 2019 estávamos aqui há dois meses e vieram trazer presentes, até ficámos sem jeito! No Verão deram-nos fruta, legumes, ovos... é giro esta dinâmica”. Nuno tenta retribuir como pode, nem que seja com música:

“Tenho no jardim da frente um banco onde toco guitarra muitas vezes. À noite, nas caminhadas de verão, muita gente parava para ouvir. E se por vezes só estávamos na rua a apanhar ar, quando passavam diziam ‘Então vizinho, hoje não há música?’ É fantástico!”.

De Lisboa, sentem falta de cultura, de alguns restaurantes e de horários mais alargados, mas nada que os faça querer voltar, “só em lazer”. E no tempo mais crítico da pandemia  sentiram-se mesmo aliviados por estar em Constância, onde nunca tiveram de lidar com filas de supermercado, com “o medo do contágio”. Tanto que quando receberam visitas de amigos no verão sentiram que “a dependência deles do álcool gel era muito maior”.

A maioria das pessoas que conheciam em Lisboa não ficaram surpreendidas com a mudança, mas também não pensaram muito no assunto. Agora Nuno recebe mensagens de amigos ou colegas “a querer saber se está a ser bom, porque estão a pensar fazer o mesmo”. Da parte dele, só bons exemplos de que “é possível viver melhor, principalmente para quem tem filhos pequenos. Faz muito sentido!”.

Dar palco aos legumes

Paulo Freixinho, de 48 anos, andou “sempre fugido da terra”. Nunca se interessou pela vida no campo, pelas vinhas dos avós ou pela tranquilidade da aldeia. Tornou-se ator no Porto, dedicando-se aos palcos do teatro, aos cenários de cinema e televisão, e aos estúdios de dobragens. Mas há 10 anos qualquer coisa mudou. “Isto não chega”, lembra ao Contas Connosco sobre o momento em que, também preocupado com a crise de 2010, sentiu “a necessidade de uma outra atividade”.

Agora, quando falamos com ele, parece que esteve sempre ali a cuidar dos terrenos da família em Ovar, a Costa da Marinha, que reconverteu para agricultura biológica - algo que antes “nem sabia bem o que era”. Aos 38 anos foi estudar na Escola Superior Agrária de Coimbra, com ‘miúdos’ dos 18 aos 70 anos, e começou rapidamente a querer experimentar a terra. Foi preparando o projeto, mas demorou alguns anos: “Era um terreno usado apenas para milho, foi preciso um tempo de espera, para ‘limpar’, porque é tudo certificado”. Foi também por isso que optou pelos hortícolas, que produzem mais rápido, porque num processo totalmente biológico “há um tempo natural de esperar que a planta cresça, com as árvores demora mais”.

Agricultor de serviço em Ovar, mas também ator no Porto, Paulo continua a dividir-se entre as duas paixões. “Não me farto de nenhuma porque tenho as duas, é um equilíbrio perfeito”, conta enquanto fala também da importância da irmã Ana, uma advogada de Ovar que às terças-feiras faz a distribuição de todos os cabazes, ou de Lúcia, que ao fim de uns meses de estágio já está totalmente integrada na pequena equipa que “tem funcionado assim, bem”. Sobre pandemias, algo que Paulo já conhece há anos nas plantas, o agricultor-ator acredita que “estamos a ter uma série de problemas globais que têm muito a ver com o não comer local”. É essa mensagem de sustentabilidade que tenta passar, e esse ‘comer local’ que procura garantir com as entregas rápidas dos cabazes de 5kg, para não perderem sabor e nutrientes. Esse sabor é garantido também por ‘ajudantes’ que fazem toda a diferença, como as ortigas ou o estrume de cavalo para fertilizar, o leite como fungicida natural, ou o sabão barra azul para bioinceticida.

Conceitos que Paulo Freixinho vai testando, às vezes com “noites ao luar a trabalhar na quinta”. Durante a pandemia passou muito mais tempo em Ovar e o trabalho aumentou, mesmo durante a cerca sanitária. Quando ia ao Porto estranhava o silêncio e as poucas pessoas nas ruas, mas ao mesmo tempo entende que isso faz falta:

“É preciso sair das cidades, procurar uma vida mais saudável, o interior está muito vazio. Viver para trabalhar é muito estranho, temos é de trabalhar para poder viver”.

'Uma pessoa quando gosta, sabe logo’

Rita e Nuno sentem que lhes saiu a sorte grande quando se mudaram de armas e bagagens para Avintes em 2019. A designer e o programador já tinham duas filhas - Ema, agora com 5 anos, e Noa, que já completou 2 - e, apesar de terem um bom apartamento em Carcavelos, sentiam falta de rua, de ar livre, ou mesmo de varandas. Eram ambos originários de Vila Nova de Gaia, conheceram-se na universidade em Aveiro, e fizeram já juntos o trajeto para Lisboa.

Além da falta de mais espaço, de cada vez que nascia um bebé lá vinham as temporadas em Gaia ou no Olival para ter “o apoio familiar que faltava”, segundo Rita, uma vez que na zona da capital só mesmo a sua irmã, uns tios e um primo.

“No início procurámos moradias em Lisboa e Carcavelos, mas rapidamente começámos a pesquisar cá em cima também”, conta Rita, que apesar de ter crescido em Gaia, sempre teve vontade de ter uma casa com terreno a toda a volta. “Uma pessoa quando gosta mesmo, sabe logo”, e foi isso que os dois souberam em janeiro de 2019, quando encontraram a casa dos sonhos em Avintes. Seis meses depois estavam a fazer a primeira mudança, com “várias carrinhas de família e alugadas, a fazer várias viagens para norte”. Foi difícil, pois “não é só o transporte, há o empacotar e depois o desempacotar”, mas valeu totalmente a pena.

Ao contrário de Nuno e Paula, que queriam fechar uma porta e abrir logo outra, Rita e Nuno, agora com 35 anos, preferiam transformar uma casa primeiro. Por isso começaram por viver com os pais de Nuno no Olival, enquanto a casa dos sonhos ia ganhando vida antes da mudança definitiva, já em 2020. “Isso até ajudou à adaptação da Ema, que antes, em Carcavelos, começava a perguntar pelos avós, e depois teve uma transição que não foi brusca. Foi vendo a casa crescer”, explica Rita. Cresceu a casa e a família, com uma nova gravidez e o nascimento do David já durante a pandemia.

O novo bebé vai poder construir todas as suas memórias numa casa que, além de um terreno grande com árvores de fruto, de ovelhas, galinhas ou patos por perto, tem uma piscina e os escritórios num anexo. E com todos os avós a 10/15 minutos de distância.

“Nunca conseguiríamos ter uma casa assim na zona de Lisboa”, garante a designer, que tem o essencial à volta: “padaria, supermercado, farmácia”.

É de chávena na mão que vão para o emprego agora. Rita continua a trabalhar numa agência digital, à distância, algo que “sabia que ia conseguir, é preciso é uma boa gestão de tempo, conciliar horários”. E Nuno mantém a empresa que criou com um sócio, que continua em Lisboa, na LX Factory. Sentem que às vezes “trabalha-se mais tempo, mas sem notar e sem prejudicar o resto”. 

Sentem saudades da família que ficou a sul, mas recuperaram os do norte, já não são necessárias viagens de três horas com crianças inquietas. Segundo a designer, nunca hesitaram ou pensaram desistir:

“Perdemos Lisboa mas ganhámos esta vida, e ganhámos Gaia e o Porto, que estão mesmo ao lado”.

O ‘miúdo da cidade’ rodeado de animais

Tomás Martins sempre viveu no centro de Lisboa, na zona do Campo Grande. “Miúdo da cidade”, como o próprio jovem de 26 anos se assume, não tinha qualquer ligação a outras regiões a não ser um avô da Madeira que tinha vindo estudar para Lisboa e cá ficou. Mas o espírito selvagem pode surgir em qualquer lado, e na adolescência Tomás começou a procurar esse contacto com alguns trabalhos de voluntariado. “Sempre tive a ideia de trabalhar com animais selvagens, jardins zoológicos e parques do género”, explicou ao Contas Connosco a partir de Santiago do Cacém, onde vive há quase três anos.

Chegada a altura de ir para o ensino superior, não teve meias medidas e foi estudar Engenharia Zootécnica para Vila Real, uma das universidades - no continente - mais afastadas da capital. Com os pais “foi complicado no início, principalmente a escolha de uma universidade distante, mas perceberam que fazia sentido, que era onde queria estar”. Recorda que procurou “a opção que desse mais possibilidades de contacto com animais diferentes, para aprender outras coisas”, e assim que Tomás chegou à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro integrou “diversos grupos de estudantes, para ter apoio e até escolher um rumo”.

Em 2018, já com a licenciatura terminada e a tese de mestrado escrita, surgiu a primeira proposta de trabalho, ser tratador do Badoca Park, em Santiago do Cacém: “Estava ainda a ponderar a minha vida quando surgiu a oportunidade e eu agarrei”. Sente que Lisboa, onde não passou mais do que duas semanas de cada vez desde que foi para a universidade, “não tem muito para oferecer”. Isto apesar de os amigos de infância e juventude sempre terem sugerido o Jardim Zoológico, para ficar mais perto de casa.  Também eles “acabaram por perceber que tinha que sair”. 

Agora são os amigos lisboetas que sentem um pouco inveja de cada vez que fazem uma visita. Em Santiago do Cacém, Tomás partilha casa com um amigo do Badoca, num rés-do-chão reformulado em plena zona histórica da pequena cidade alentejana, “que seria  impossível pagar no centro de Lisboa”. Apesar de ter falta de alguma oferta cultural, não está assim tão longe da capital e sente que tem tudo o que é essencial, principalmente liberdade:

“Nunca me senti claustrofóbico, estou perto de praias, que é uma coisa que adoro. Até foi aqui que comecei a experimentar surf”.

Janeiro é altura de outra mudança, mas não de casa. Tomás começa agora uma nova etapa profissional numa unidade de produção de frangos, da Avibom. “Sabia exatamente o que ia fazer no Badoca, mas depois deste tempo queria um pouco mais, outro estímulo”, explicou ao Contas Connosco. Apesar de ter de se deslocar cerca de 30 km para o Cercal, prefere isso a ter de demorar o mesmo tempo no trânsito de Lisboa para uma distância muito menor. Ganha “tranquilidade”. 

Também o tempo da pandemia trouxe um sentimento de alívio. Tinha preocupações com a família, até pelo facto de contactar com muitas pessoas e poder ser ele um transmissor do vírus, mas nunca sentiu restrições como na capital. Voltar a Lisboa não está nos planos de Tomás, sair do país talvez: “Gostava de fazer uma experiência fora de Portugal”.

Ventos de mudança

A pandemia de Covid-19, com os períodos de confinamento e o teletrabalho, levou muitos profissionais a saírem da cidade e/ou a regressarem às casas de família para terem mais apoio ou para pouparem nas despesas de habitação, já que não precisavam de estar perto de um escritório. Mesmo que a maioria retorne à cidade quando as coisas voltarem definitivamente ao normal, para alguns o ‘bichinho’ do campo já terá ficado no corpo.

O investimento no turismo, a agricultura biológica, o apelo da sustentabilidade, o querer dinamizar uma propriedade de família ou a vontade mudar de vida e de criar uma família num ambiente de maior tranquilidade, em comunhão com a natureza, são outras razões que levam as pessoas a dar o passo seguinte. E o Governo está apostado em incentivar esse movimento, com um programa que dá até 4.827€ às famílias que se inscrevam no Emprego Interior Mais.

Há também um serviço de consultoria, o Novos Povoadores, que ajuda famílias ou pessoas com projetos de empreendedorismo a instalarem-se em zonas mais rurais do território. Só este ano já receberam mais de 600 contactos de interessados, o que contrasta com a média de 130 dos anos anteriores desde 2009, afirmou ao semanário Expresso Frederico Lucas, fundador do projeto, em outubro, explicando que a pandemia “veio quebrar receios sobre o trabalho à distância”.

Se tem essa vontade de sair da cidade, mas não tem as poupanças necessárias, ou bens como uma casa própria para vender, existem várias opções para não deixar de lado os seus sonhos. Pode optar por uma linha de crédito, por exemplo, ajustada às suas necessidade e ao seu orçamento. Escolha uma solução mais flexível, para que consiga adaptar as mensalidades caso haja novas mudanças na sua vida.

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