Trabalho e carreira

Começou a trabalhar numa nova empresa durante a pandemia?

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Duas recém-empregadas em tempos de pandemia e uma especialista em recrutamento apontam as facilidades e as dificuldades do teletrabalho numa nova empresa. Uma coisa é certa: o mundo do trabalho mudou e talvez para sempre.

Data de publicação 2021 M05 6

A pandemia veio alterar todo o universo laboral, seja para o empregado, seja para o empregador. A tendência do teletrabalho veio para ficar e até já há empresas que não ponderam voltar ao trabalho presencial. Mas, mais do que isso, o mundo do trabalho está pronto para um novo modelo híbrido, que conjuga as funções remotas dos seus trabalhadores com as presenciais. As tecnologias de informação que já existiam foram potenciadas ao máximo durante este período pandémico e a sociedade teve de se adaptar a esta nova realidade laboral que, por força da COVID-19, está cada vez mais digital e flexível.

Uma adaptação fácil e sem complicações

Se os que já tinham o seu emprego tiveram de fazer uma adaptação forçada a esta nova forma de trabalhar, o que dizer de quem mudou de emprego durante a pandemia? Como foi a adaptação ao teletrabalho numa nova empresa?

Foram estas algumas das questões que colocámos a Rita Henriques, de 40 anos e licenciada em Gestão, mas com um percurso profissional na área do Marketing e da Comunicação. Ficou desempregada em novembro de 2020, devido à pandemia: “a empresa onde estava dispensou várias pessoas”, conta. Mas não foi por muito tempo. Em fevereiro deste ano, abraçou o desafio numa empresa especialista em cibersegurança, onde fez todo o processo de recrutamento e de adaptação de forma remota. “Candidatei-me a esta empresa e passadas poucas semanas fui contactada pelos Recursos Humanos para uma primeira entrevista por videochamada”. Depois, voltou a ser contactada para uma segunda entrevista com os Recursos Humanos e com o Managing Partner, “também por videochamada e em que me apresentaram um desafio com prazo de entrega”. Finalmente, foi-lhe feita a proposta para entrar na empresa, “mais uma vez por videochamada”, revela Rita Henriques.

Rita Henriques reforça que não sentiu qualquer dificuldade em todo o processo, que  acabou por ser muito positivo. “Depois de assinar o contrato, enviaram-me para casa o kit onboarding, que incluía o portátil e todas as ferramentas para eu poder trabalhar.” Além disso, atribuíram-lhe ainda um subsídio de teletrabalho, como forma de lhe dar melhores condições para trabalhar em casa. “Conheci todos os colegas com quem trabalho diretamente de forma virtual. Houve um processo de integração, com um plano delineado durante três semanas. Fui sempre muito acompanhada, nunca me senti sozinha. Senti que me queriam conhecer como profissional e como pessoa, que eu não era apenas mais um número”, diz Rita Henriques.

A nova realidade do recrutamento

Cláudia Rodrigues, manager de recrutamento do Grupo Constant, diz que esta é de facto a nova realidade do recrutamento, em que tudo é feito à distância. “Se, por um lado, se perde alguma inferência na avaliação comportamental do candidato, uma vez que remotamente se perde a eficácia do contacto visual e de toda a componente não verbal, há, por outro lado, também coisas positivas a retirar daqui. A facilidade de se marcar uma entrevista com o candidato é muito maior, visto que não há deslocações. Assim, há uma maior recetividade quer do candidato, quer do empregador, a nível de agenda, quando as entrevistas são marcadas via online”.

A gestão de expectativas e a avaliação comportamental que se perde remotamente também acaba por ser compensada no fim do processo, de acordo com Cláudia. “Numa fase final do recrutamento, muitas empresas ainda nos pedem para ter uma entrevista pessoal com o candidato, já que o empregador tem que sentir que a pessoa se encaixa na cultura da empresa. A gestão de expectativas ainda é muito face-to-face”.

O fosso do distanciamento social

Se para Rita Henriques toda a adaptação correu sem complicações, já para Rita Magalhães, na foi bem assim. Esta social media consultant de 25 anos diz que se sentiu “um bocadinho perdida na adaptação ao teletrabalho de um novo projeto”. Esta bracarense que veio estudar e trabalhar para Lisboa, encontrou um novo emprego em agosto de 2020, em plena pandemia, sendo que o primeiro contacto tinha sido em janeiro de 2020. “Aí, ainda tive a primeira entrevista presencialmente, uma vez que o país ainda não estava confinado. Mas depois veio a pandemia e só voltei a ser contactada em junho desse mesmo ano, com uma série de entrevistas por videochamada”. O processo correu todo muito bem nesta fase. “Correram lindamente as conversas, enviaram-me o contrato para casa, assinei-o e devolvi-o pelo correio, tudo à distância”. Apresentaram-na depois à equipa e aos clientes com quem iria trabalhar por videochamada e a integração estava a correr muito bem, até ser chamada para um novo projeto dentro da mesma empresa. “Aconteceu em março de 2021, houve uma nova entrevista por videochamada e apesar de ter corrido bem, hoje sinto-me um bocadinho perdida”. Rita sentiu na pele o distanciamento social, alguma falta de comunicação que presencialmente não costuma acontecer, “porque as pessoas estão mais próximas umas das outras e a entreajuda acontece de forma espontânea. Talvez também devido à minha personalidade, sou uma pessoa muito sociável, que preciso do contacto próximo com o outro, esse é um ponto facilitador na resolução de questões que vão acontecendo ao longo do dia”.

Hoje, sobrevive o que melhor se adapta

A espontaneidade de que fala Rita Magalhães é, de facto, umas poucas coisas às quais o teletrabalho não consegue responder. Para quem já tinha a sua rede social criada no trabalho pré-pandemia, a gestão da adaptação ao teletrabalho torna-se muito mais fácil. Mas para quem está a iniciar um novo emprego sem conhecer ninguém, o desafio torna-se muito maior. Já não há oportunidades de partilhas sociais mais espontâneas, como as pausas para os cafés ou os dois dedos de conversa trocados com o colega do lado, sobre outros assuntos que não os laborais.

É por isso que para Cláudia Rodrigues hoje não é o mais forte que sobrevive neste recém criado mundo do trabalho, “mas o que mais se adapta, o mais versátil. Seja a lidar com as novas tecnologias de informação, seja a fazer a gestão do seu tempo e produtividade.” Mais do que nunca, o universo laboral pede resultados, no escritório ou em casa. Este é assim o momento de capacitar as pessoas para operar mais eficientemente num mundo mais virtual. A pandemia, como diz Cláudia, “apenas acelerou a necessidade de atualizar as competências digitais das empresas e dos candidatos”.

Dicas para se adaptar melhor ao teletrabalho numa nova empresa

  • Seja flexível - acredite na sua capacidade de adaptação e de superar os desafios na nova realidade laboral e não hesite em pedir ajuda aos colegas e chefias;
  • Centre o teletrabalho em objetivos e não em horas efetivas de trabalho;
  • Escolha um local com luz e silencioso para as reuniões em videochamada.
  • O teletrabalho não significa trabalhar sozinho ou em isolamento - defina com os seus colegas e chefia a melhor forma de comunicarem e a frequência e partilhe com eles as suas experiências e dificuldades, apoiando-se mutuamente;
  • Dê também espaço à confraternização - naquela pausa para o café, ligue-se a um ou mais colegas e converse sobre outras questões que não envolvam o trabalho.